quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

A Porta Cinza

Havia uma porta,
cinza, no fim de um corredor escuro
e úmido,
tracejada por marcas de mofo,
com o cheiro áspero das lembranças guardadas
e pouco revisitadas.

A porta era de um cinza desbotado,
como se o simples fato de ser cinza por si só,
não fosse já enfadonho o bastante.
Tudo ao redor era monótono, e pelas janelas víamos o desgaste do tempo
corroendo nossas esperanças.

Às vezes a porta rangia,
e era um gemido sofrido, quase um pedido de ajuda,
ou um convite.
Entretanto estávamos embrenhados em toneladas de afazeres inúteis,
atolados em números afiados raspando nossa pele,
nos fazendo sangrar e ter pesadelos,
mas mesmo assim permanecíamos,
fiéis na sua promessa de salvação.

Mas os números não nos salvaram, e
a cada dia nos sufocávamos mais e mais nesse
turbilhão de obrigações sem sentido,
marchando rumo ao nada,
perdidos numa escuridão a qual nossos olhos
já estavam acostumados.

Um dia eu olhei pela janela,
o mundo parecia impregnado de um azul mórbido,
retirado de algum local submarino inóspito.
E não havia mais quase ninguém
que pudesse preencher o ambiente com sorrisos.

Na rua eu vi definhando
já quase sem forças, a última esperança,
corroída pela falta de fé.

Houve um relâmpago. e a chuva reclamou a Terra.
As luzes piscaram e senti uma eletricidade diferente percorrendo meu corpo.
(Estava eu ainda vivo?)
Ouvi um gemido, que quase passou despercebido,
pois a tempestade se fez onipresente do lado de fora.
Novo clarão. Luzes indo e voltando.
E fomos envolvidos pelas trevas.

A velha porta ranzinza gemeu mais alto, implorando.
O ventou uivou com ameças,
e uma voz de trovão parecia querer me fazer em pedaços.
Tateei a parede anestesiado.
O chão havia desaparecido.
(Era aquele o grande momento?)

Do lado de fora, contra a tempestade, a esperança ainda resistia.
Meus dedos tocaram a porta levemente,
ela estava entreaberta.
Mesmo às cegas, senti os olhares de protesto e resignação dos meus irmãos.
Alguma coisa acontecia com eles também.

No escuro, a porta cinza era apenas uma porta.
(Era ela que guardava todas as dores?)

Eu atravessei.